Sobre Beastie Boys, evoluir e ter coragem para continuar rindo

Em uma dessas noites em que debatíamos o que ver na TV, Thiago e eu entramos em uma maratona espontânea de clipes pelo YouTube. Passamos por todos os hits do Red Hot Chili Peppers (a minha banda da adolescência) até que o algoritmo nos levou para o clipe de “Make Some Noise” dos Beastie Boys.

No vídeo, Seth Rogen, Danny McBride e Elijah Wood fazem as vezes de Mike D, MCA e Ad-Rock, saindo diretamente da festa de “(You Gotta) Fight for Your Right (To Party!)”. No caminho, os três encontram rostos conhecidos como Rashida Jones, Will Arnett, Rainn Wilson, Jason Schwartzman, Ted Danson, Amy Poehler, Steve Buscemi, Chloë Sevigny, Maya Rudolph, Kirsten Dunst, David Cross, Orlando Bloom, Will Ferrell, John C. Reilly e Jack Black. Eu só pensava “como que eu nunca tinha visto esse clipe antes?”. Uma supresa intensificada alguns minutos depois quando Thiago descobriu que existia uma versão de 30 minutos (dirigida pelo MCA), com ainda mais participações especiais.

Fui dormir relembrando os outros clipes da banda que amava ver nos meus tempos de espectadora assídua da MTV e Thiago continuou na sala. Caiu em um show gravado em Glasgow e ficou hipnotizado. Na manhã seguinte veio mostrar: “você precisa ver isso”. Gravado em preto e branco, o show feito em um palco redondo tem a atmosfera de um sonho (um sonho alto e enérgico, daqueles de que se acorda sem fôlego). Nossa redescoberta dos Beastie Boys levou a lembrança do filme do Spike Jonze no catálogo do Apple TV+  que há tempos planejávamos ver.

Beastie Boys Story é um documentário ao vivo, baseado no livro escrito por Michael DiamondAdam Horovitz (ou Mike D e Ad-Rock), com produção e direção de Jonze (amigo de longa data da banda e responsável por clipes clássicos como “Sabotage”). O “ao vivo” fica por conta do formato, com Diamond e Horowitz apresentando a própria história no palco do Kings Theatre do Brooklyn. Na frente de um enorme telão, os dois relembram a trajetória da banda e a ausência de Adam Yauch, que morreu em 2012.

Yauch, o MCA, foi quem começou o grupo e escolheu o nome, um acrônimo para “Boys Entering Anarchistic States Towards Inner Excellence”, e quem guiava o trio por muitas das suas descobertas criativas. Sua morte inesperada foi o fim inesperado dos Beastie Boys, uma banda construída por uma rara sinergia emocional e criativa. A história que se desenrola nas duas horas de documentário é de amizade e trabalho, uma combinação que enfrentou os excessos de uma carreira que começou cedo, com sucessos estrondosos e fracassos silenciosos, mas encontrou o caminho da própria evolução. 

Relembrar é também encarar os erros do passado e Diamond e Horowitz não fogem do espelho. Os dois encaram como no começo se tornaram a própria piada, virando os beberrões sexistas que ironizavam em “(You Gotta) Fight for Your Right (To Party!)”, uma imagem que continuou os assombrando ao longo dos anos. Crítica que Horowitz, hoje casado com Kathleen Hanna (ícone punk feminista, vocalista das bandas Bikini Kill e Le Tigre), responde em uma frase, declamada por Mike D no documentário:

Prefiro ser um hipócrita do que ser a mesma pessoa para sempre”.

Essa capacidade de transformação dos Beastie Boys, combinada com a coragem de não perder o senso de humor, é o que fez de uma banda fabricada para levar o rap para a TV no fim dos anos 1980 em um dos grupos mais interessantes dos últimos 30 e tantos anos. Não é preciso entender de música profundamente para se arrepiar enquanto Diamond e Horowitz narram o nascimento de “Sabotage”, cuja construção é mais uma vez a soma do talento do grupo para criar música e para fazer piada. 

O conceito do documentário ao vivo tem um resultado um pouco desconjuntado, como uma grande apresentação de Power Point que nem sempre segue como o planejado, mas no fim das contas é um registro da memória da banda muito mais genuíno do que uma série de depoimentos solenes alternados com imagens de arquivo. O Beastie Boys nunca foi convencional e não seria essa a hora para começar. O resultado é uma conversa inspiradora sobre amizade, descoberta, amadurecimento, criatividade e colaboração. É sobre errar, ouvir, amar, perder e aprender. Sobre lembrar e guardar. Para terminar de ver em lágrimas no sofá e depois sair correndo e pulando como um idiota pela sala.

Assista ao documentário "Beastie Boys Story" - Skataholic: Portal e Loja de  Skate

Um comentário em “Sobre Beastie Boys, evoluir e ter coragem para continuar rindo”

  1. E o Mike D é casado com a Tamra Davis! Ela dirigiu o filme da Britney Spears – CrossRoads, Mmmmbop, dos Hasons E 100% Do Sonic Youth. Se tb contar as coisas que a Kathleen Hana fez, pode-se dizer que a Família Beastie Boys é um resumo dos anos 90. Imagina as histórias dessa galera!

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