Amor de cinema

Lembro de revirar os olhos ao ler em uma entrevista do Alejandro G. Iñárritu a declaração de que O Regresso merecia ser visto em um “templo”. As palavras são, é claro, de um diretor muito orgulhoso do seu filme e que também reconhecem que o trabalho primoroso da fotografia de Emmanuel Lubezki é digno da melhor tela possível. O problema é o subtexto elitista que a fala carrega, como se o verdadeiro cinema fosse uma arte restrita a certas condições.

Eu amo ir ao cinema. É um amor que carrego desde que minha mãe levou a mim e meu irmão, ainda no colo, para ver Aladdin em um cinema de Brusque, em Santa Catarina, e é um amor que se renova cada vez que as luzes se apagam para tela grande brilhar. Porém, tendo nascido em 1986 e morado no interior do Brasil por boa parte da minha vida, sei que meu amor por filmes não é limitado à experiência do cinema. Fosse assim, entre meus favoritos não poderiam estar Quanto Mais Quente Melhor, Se Meu Apartamento Falasse, Blade Runner ou Os Caçadores da Arca Perdida. Sequer poderia mencionar o quanto Os Incompreendidos de Truffaut me tocou, o quanto fiquei hipnotizada por A Noite de Antonioni ou apaixonada por Antes do Amanhecer do Linklater.

Nem o próprio Martin Scorsese pode negar a minha admiração por Os Bons Companheiros, que nunca vi no cinema, mas descobri nas minhas rotineiras visitas à locadora (atividade também patrocinada e incentivada pela minha mãe) e que vi em uma TV de tubo de tamanho apenas razoável. O próprio Scorsese, aliás, grande defensor da experiência cinematográfica, admite que sua paixão começou mesmo pela TV. O ideal, diz, quase se desculpando na sua MasterClass, seria ver na tela grande, mas sua história de amor começou na telinha.

Não há discussão sobre a experiência cinematográfica ser diferente. A imersão criada pelo contraste da sala escura com a tela que se ilumina de histórias é única e apaixonante. O que realmente exige um ambiente favorável. Não dá para esquecer a raiva que passei pela ironia de ver Um Lugar Silencioso em uma sala em que as pessoas não calavam a boca ou das tantas vezes que paguei o ingresso caro mas não recebi nem a infraestrutura de uma capela, quem dirá de um templo.

Um ano de pandemia na conta, sem data para acabar no Brasil, com o medo e a tristeza como constantes, a saudade de ir ao cinema aperta mais e mais. Acabei nesse período me afastando também dos filmes em casa, buscando nas séries um encontro mais longo (ainda que por vezes devastador,  como com I May Destroy You). Quando saíram os indicados ao Oscar percebi quantas histórias tinha deixado passar, uma vez que em outros anos já estava acostumada a ter tudo na ponta da língua por conta do privilégio de cobrir o Festival de Cinema de Toronto (bons tempos, vendo 3, 4 e até cinco filmes em um mesmo dia). 

Aproveitando a lista do Oscar, criei o Festival do Eu Sozinha  — o que quer dizer eu sozinha na minha sala com bons filmes) e venho sendo arrebatada por histórias tão diferentes como Druk, Meu Pai e Bela Vingança (faltam muitos títulos indicados ainda e falo mais sobre todos em breve). Agora com a notícia de que a Disney modificou mais uma vez seu calendário de estreias, colocando no formato híbrido (lançamento simultâneo nos cinemas e pelo streaming) filmes que há muito vinham sendo adiados como Viúva Negra, fiquei pensando como vai ser a experiência cinematográfica daqui para frente e a ideia de um templo já não me faz mais revirar os olhos.

Como os hábitos do público mudaram e se adaptaram nesse tempo, com barreiras antes consideradas inquebráveis sendo rompidas (como a janela de exibição nos cinemas), tudo indica que a indústria cinematográfica não voltará para o que era antes da pandemia. E aí que a ideia do templo deixa de ser apenas parte do discurso elitista de um diretor um tanto cheio de si para se tornar o projeto de um local para congregar e iluminar.

Se ver um filme em casa é razoavelmente mais acessível e pode sair mais barato, mesmo dentro de formatos como o premium access, vai ser difícil tirar essa noção do consumidor (o que Hollywood já está percebendo com a abertura gradual nos EUA). Logo, é preciso reforçar o conceito da sala de cinema como uma celebração coletiva da sétima arte em toda a sua glória. De qualquer forma, essa é uma conversa para se ter lá na frente, quando a esperança voltar. Por enquanto estou apenas satisfeita pela possibilidade de ter muitos filmes para ver em casa, sejam indicados ao Oscar, brincadeiras fashionistas como Cruella ou o tão merecido filme solo da Viúva Negra. Esse é o tipo de amor que preciso agora para continuar em pé.

3 comentários em “Amor de cinema”

  1. Realmente Natália, tenho um carinho muito grande pelas salas de cinema por sempre ir com a minha tia desde pequeno assistir diversos filmes que hoje estão no meu coração, e lógico um carinho pelo cinema como um todo ( o que cresceu muito mais nesses últimos tempos, mudando minha cabeça para esse meio e decidindo que quero trabalhar nele também ) mas é fato, o jeito como recebemos esses conteúdos vai mudar e teremos que nos acostumar de alguma forma. A pandemia mudou o mundo todo e como a 7a arte faz parte dele, a mesma obviamente também se transformou, vamos ver o que vai acontecer. Adorei o texto! Bj

  2. Adorei a reflexão, é interessante como esse momento também está servindo para que aqueles que por muito tempo rejeitaram os serviços de streaming estejam descobrindo algum prazer no “cinema em casa”. Resta saber quão profundo pode ter esse prazer a ponto de substituir as salas de cinema. Texto fantástico! ❤

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