Jane the Virgin: uma série para chamar de amiga

Por meses, Jane the Virgin acompanhou minhas manhãs. Antes, Gilmore Girls foi minha parceira entre bocejos e goles de café. 

Já esperava o amor pelas garotas Gilmore, mas Jane the Virgin, que por muito tempo evitei por conta do título — por que teria interesse na história de uma virgem chamada Jane? — foi uma surpresa. Queria outra série longa para ter a parceira matinal acertada por um bom tempo. Procurei no catálogo da Netflix algo não tão recente e de TV aberta, o que já garante um número maior de episódios. Encontrei mais do que isso. 

O texto desenvolvido por Jennie Snyder Urman (que, por sinal, foi coprodutora de Gilmore Girls) é afiado e usa a linguagem das novelas latinas e do realismo mágico para falar sobre todos os assuntos possíveis. Seus personagens — que giram em torno do clã Villanueva composto por Jane (Gina Rodriguez), sua mãe Xiomara (Andrea Navedo) e a avó Alba (Ivonne Coll) — fazem com que você se sinta parte da família. Toda vez que Rogelio De La Vega (Jaime Camil) — pai de Jane e astro das telenovelas — aparecia com sua fala exagerada e seu figurino lavanda, eu via meu sorriso refletido na TV.

Até o narrador, que começa cada episódio recapitulando a trama, e que tem opinião sobre todos os desdobramentos, se torna uma presença querida. Isso porque Jane the Virgin não priva nenhum dos seus personagens de desenvolvimento. Todos os clichês das novelas estão lá, mas são usados como contraponto para apresentar pessoas complexas. Petra (Yael Grobglas), por exemplo, começa como a vilã, loira e fatal, para ao longo das cinco temporadas se tornar uma das personagens mais interessantes, abrindo discussões sobre amizade feminina, família e novas formas de amor. O mesmo vale para o galã Rafael (Justin Baldoni), no centro de tramas sobre masculinidade tóxica, rejeição e depressão.

Enquanto secava as lágrimas pelo último episódio fiquei pensando em quanto tempo se perde discutindo se uma série ou um filme são bons ou ruins, como se apenas isso determinasse a relevância de uma produção. Para começar, são conceitos completamente aleatórios: não existe regra para paladar. O efeito da obra é exclusivo a quem a consome e leva em conta diversas variáveis: repertório, afinidade, crenças, percepção… Jane the Virgin é certamente querida pela crítica pelo seu uso preciso da metalinguagem e a forma como fala de latinidade nos EUA. É o alcance emocional, porém, que transforma essa perspicácia em conexão. Quem não estabelece essa relação com a série dificilmente vai apreciar a sua qualidade. Já Fuller House é bem ruinzinha se analisada friamente. A narrativa é pobre, o mundo que retrata é uma bolha de privilégios e, ainda assim, há quem goste — eu mesma no caso, admito sem vergonha. Como? Ligação emocional. 

No cinema isso acontece com os filmes que se integram ao imaginário, vistos muitas e muitas vezes como um sonho que pode ser repetido. Com algumas séries essa conexão cresce com o passar dos episódios, conforme se vai conhecendo os personagens em uma boa conversa de 25 ou 40 minutos. Quando essa conversa acaba surge um vazio, como no término de um relacionamento — algumas pessoas até evitam o final das suas séries favoritas como se estivessem evitando aquela conversa definitiva em que se percebe que não existe mais volta. Essa, porém, é uma relação que sempre pode ser revisitada — que o diga quem já viu 1.789 vezes o episódio de Friends em que Monica e Rachel perdem o apartamento para Joey e Chandler.

Hoje, com todas as dores acumuladas pela pandemia, o que mais procuro em uma série é essa relação emocional. Histórias que não sejam apenas arrebatadoras pela inteligência das suas tramas, mas que tenham personagens que tragam cor para uma realidade cinza. Jane the Virgin faz tudo isso, é uma série para chamar de amiga.

3 comentários em “Jane the Virgin: uma série para chamar de amiga

  1. Amei o post, miga!!! Super concordo contigo no que diz respeito à metalinguagem. Eu amei muito inclusive aquele episódio, se não me engano, da segunda temporada, da Britney Spears, lembra? Nossa, me fez recordar quando Glee fazia seus episódios especiais sobre ela também. Realmente temos que abrir a mente para aceitar o que o roteiro nos proporciona e não levar tão a sério. Amei 💜

  2. É incrível como essa série se tornou um abraço quentinho pra mim. Lembro-me de vários momentos em que fui consolada pela sabedoria das mulheres Villanueva.
    Texto maravilhoso Natalia ❤️

  3. Comecei a assistir Jane esses dias pra ser um alívio nessa loucura de pandemia e me surpreendi muito! É uma série bobinha, mas a diversidade dos personagens faz a série muito mais interessante. Adorei a sua resenha 🙂

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