Teste do Tempo: Como a postura diplomática de X-Men – O Filme levou a uma nova era dos heróis no cinema

Conheci os X-Men pela série animada, que amava em todas as suas cores e visuais mirabolantes (cantava a musiquinha de abertura, queria ser a Vampira, adorava a Tempestade e, confesso, desenvolvi uma certa paixonite pelo Gambit). Porém, apesar do sucesso dessa versão inspirada na arte de Jim Lee ter motivado a produtora Lauren Shuler Donner a comprar os direitos de adaptação dos mutantes para a 20th Century Fox, os X-Men que chegaram aos cinemas em 14 de julho de 2000 eram bem mais discretos. 

Para entender como as cores se perderam nesse processo é preciso analisar o contexto da época. De um lado, Batman & Robin (1997) extrapolou a abordagem cartunesca dos heróis no cinema, acumulando críticas negativas e faturando menos que seus antecessores. De outro, Matrix (1999) deu o tom da virada do milênio, uma fantasia cyberpunk/filosófica vestida de preto, couro e verniz. Assim, do momento da compra dos direitos de adaptação até o filme sair do papel muitos anos se passaram e muitas concessões foram feitas. Quando X-Men: O Filme finalmente recebeu o sinal verde e um orçamento de US$ 75 milhões, Bryan Singer precisava argumentar que super-heróis não eram coisa de criança e tinham muito a dizer.

Rever o filme hoje, passados vinte anos, escancara esse esforço. Não só pela famosa fala de Ciclope sobre o “collant amarelo” adicionada para responder aos fãs dos quadrinhos sobre a mudança visual dos personagens, mas pela postura defensiva que o roteiro assume, principalmente na figura de Wolverine (Hugh Jackman). Enquanto Vampira (Anna Paquin) é primeira guia para esse mundo por descobrir seus poderes e consequentes dores e preconceitos enfrentados pelos mutantes, Wolverine está lá como o representante da descrença do público: “Dente-de-Sabre? Tempestade. E como o chamam? Rodinhas? Que coisa mais estúpida”, diz ele para o Professor Xavier (Patrick Stewart) ao ser apresentado à trama (a escola para jovens superdotados que abriga os jovens mutantes e a guerra entre humanos e mutantes defendida por Magneto). Minutos antes, Wolverine faz o mesmo comentário para questionar o nome de Vampira, uma fala que também serve para abordar o seu próprio apelido inusitado. 

Perde-se tanto tempo nessa defesa que o roteiro não tem muito tempo para desenvolver a maioria dos personagens, que dependem do carisma dos atores para ir além dos seus poderes e estabelecer relações entre si e o público (o que acontece principalmente com Ian McKellen, Patrick Stewart e o então novato Hugh Jackman). Tempestade (Halle Berry) é o caso mais significativo de desperdício. Toda a sua imponência e importância nos quadrinhos é reduzida a descrição do seu poder de “controlar o clima” e alguns diálogos de apoio. Já Vampira, inicialmente a guia do público, desvia da sua jornada como heroína para ser uma peça no plano de Magneto de transformar a população de Nova York em mutantes. Jean Grey (Famke Janssen) até garante mais espaço por ter incorporando algumas características que seriam do Fera (cortado do roteiro por razões orçamentárias), mas todo o desenvolvimento da personagem além da telepatia e da telecinese está no fato de ser noiva de Ciclope (James Marsden) e flertar com Wolverine. 

Ainda que seja pela descrição geral um filme sobre um grupo de heróis, X-Men não elabora o imaginário do time (a necessidade narrativa de que aquele grupo de indivíduos fantásticos se reúna para resolver uma grande ameaça). O foco está em criar a sua alegoria — o preconceito contra os mutantes que representa todos os preconceitos da sociedade — e em convencer que “heróis parecem bobos mas são legais”. É por isso que o filme abre com a cena do jovem Magneto no campo de concentração, uma forma do adulto da época reconhecer a gravidade do que estava vendo mesmo dentro de um contexto fantástico. 

No final, quando o desconfiado Wolverine aceita o seu lugar nesse universo, o mesmo acontece com o público, que estava finalmente pronto para uma nova era dos heróis no cinema. X-Men: O Filme pode não passar ileso ao teste do tempo, mas a sua “estratégia diplomática” foi essencial para a explosão que viria a seguir. E é notável perceber como o ciclo em torno do filme se fechou. Kevin Feige, assistente de Lauren Shuler Donner na época (contratado pelo seu vasto conhecimento em quadrinhos) criou um Universo Cinematográfico como presidente do Marvel Studios e Chefe Criativo da Marvel. Hoje os direitos de adaptação dos mutantes estão de volta as suas mãos para fazer o que bem entender, podendo, enfim, abraçar todas as cores, personalidades e diversidade que os X-Men têm a oferecer.

4 comentários em “Teste do Tempo: Como a postura diplomática de X-Men – O Filme levou a uma nova era dos heróis no cinema

  1. Não li o texto ainda, mas já vim aqui te aclamar. Adoro suas reflexões. Prefiro dizer reflexão ao invés de crítica, porque sinto que as coisas que você escreve, sobre o que for, tem um algo a mais. Você é incrível!

  2. É muito legal pensar que se o primeiro X-men fosse lançado atualmente, com certeza seria alvo de muitas críticas negativas (desconsidera-se o fato dos efeitos visuais, já que é o que tinha na época). Porém, nós só podemos afirmar isso hoje porque foi desenvolvido ao longo de todos esses anos um conhecimento a cerca de adaptações de HQ e histórias de super-heróis, e esse conhecimento tem sua origem no próprio filme dos X-men de 2000.
    Agora, nos resta esperar que o Kevin Feige honre esse legado dos mutantes ao introduzi-los no MCU!
    Ótimo texto! Estarei sempre pronto para enaltece-lá ❤

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