Filmografia comentada: Spike Lee

Faça a Coisa Certa [📸 Anthony Barboza/Getty Images]

Estudar a obra de um artista em ordem cronológica é uma das melhores formas de entender a construção do seu imaginário. Vida pessoal, momento histórico e influências se acumulam, misturam e transformam na criação de uma assinatura. Do primeiro trabalho ao mais recente é possível acompanhar essa evolução passo a passo, entender os momentos inspirados e os de dúvida. Um processo muito mais eficiente para captar essência e alcance do que a leitura de uma biografia (ainda que as duas coisas sejam complementares).

Dito isso, começa aqui a seção Filmografia Comentada, que vai analisar o trabalho de diferentes cineastas, filme por filme, começando com Spike Lee. Nascido em 1957, o diretor/produtor/roteirista/ator, foi por muito tempo o representante cinematográfico máximo da cultura negra norte-americana, seguindo os passos de Oscar Micheaux, diretor e produtor da Lincoln Motion Picture Company, a primeira produtora criada e controlada por cineastas afro-americanos.

Nascido na Geórgia e criado no Brooklyn, filho de uma professora rígida e de um músico de jazz, Lee equilibra na sua assinatura todas as contradições americanas, sendo representante, cronista e também crítico das culturas que habita. Sua marca é a ironia com que olha para essas mesmas contradições, começando pela forma como apresenta seus filmes (a Spike Lee Joint/ Um baseado do Spike Lee em tradução livre) e pelo nome da sua produtora: a 40 Acres and a Mule Filmworks. O nome tem origem em um episódio do período da Reconstrução pós-Guerra Civil. Em 1865, o General Sherman ordenou que fossem distribuídos lotes de 40 acres, além de algumas mulas do exército, para famílias de escravos libertos. Quando Abraham Lincoln foi assassinado, essa medida foi revogada por Andrew Johnson, que tirou a terra das famílias e a “devolveu” para os antigos proprietários.

Ainda que não tenha recebido a mesma atenção e reconhecimento, Spike Lee está hoje ao lado de grandes nomes como Martin Scorsese, Steven Spielberg e Quentin Tarantino. É dono da sua própria marca, distribuída em 93 créditos como diretor, incluindo curtas, séries de TV, minisséries, documentários, comerciais e videoclipes. Aqui vamos analisar os seus 24 longas-metragem de ficção. A lista será atualizada ao longo dos próximos meses; acompanhe:

  1. Joe’s Bed-Stuy Barbershop: We Cut Heads (1983) 

Primeiro longa de Spike Lee, Joe’s Bed-Stuy Barbershop: We Cut Heads é a também a sua tese de mestrado na Tisch School of the Arts. O filme em 16mm sobre uma barbearia em Bedford-Stuyvesant, no Brooklyn, foi financiado pela avó do cineasta e custou US$ 10 mil. Seu pai, Bill Lee, criou a trilha sonora em uma equipe que também contou com Ang Lee como diretor assistente e Ernest R. Dickerson como diretor de fotografia (iniciando uma parceria que se repetiria até Malcolm X).

Na trama, o barbeiro Zack (Monty Ross) quer manter seu negócio honesto depois que seu sócio foi assassinado pela máfia local (que usava o local como uma casa de apostas clandestina). Porém, a honestidade não compensa e a barbearia fica vazia sem as apostas. Coagido, ele aceita voltar para ilegalidade depois de ouvir do poderoso Nicholas Lovejoy (Tommy Redmond Hicks) que sua colaboração era uma forma de empoderar a comunidade negra, que deveria se unir assim como os italianos e judeus. Em paralelo, o filme lida com um adolescente problemático, Teapot (Stuart Smith), e as frustrações de Ruth (Donna Bailey), assistente social e esposa de Zack. 

Enquanto explora visualmente as ruas de Nova York e elabora um estilo que valoriza a cultura afro-americana da época, o filme também aborda a impossibilidade do sonho americano dentro dessa comunidade. Zack quer ser honesto, mas seu gesto não é valorizado. Quando tenta a alternativa, também se vê em apuros, jogado em uma situação em que é impossível vencer. Ruth trabalha em prol da comunidade, mas acaba sendo atacada pelos mesmos que tenta ajudar. Ali Teapot é o ponto de esperança, que abraça a linguagem das ruas (em uma das cenas ele ensina um garoto mais novo como xingar corretamente) e também sabe como transformar as oportunidades que surgem na sua frente (usando o dinheiro roubado da máfia para comprar uma câmera e dar início ao sonho de se tornar um fotógrafo).

O filme ganhou um Oscar para estudantes dado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e foi o primeiro longa de um estudante a ser exibido no Festival de Novos Diretores do Lincoln Center, marcando presenças em outros festivais. Tudo graças ao poder de persuasão de Lee, que convenceu a First Run Features, onde trabalhava, a distribuir seu We Cut Heads. Com a exposição, o cineasta passou a ser agenciado pela Agência William Morris e esperava pela sua grande chance em Hollywood.

Dois anos se passaram e a oportunidade não chegou. Foi quando Lee decidiu escrever, produzir e dirigir o seu próximo filme, usando o apoio financeiro do Conselho de Arte de Nova York e de outros fundos de incentivo (recebido graças a recepção positiva de Joe’s Bed-Stuy Barbershop: We Cut Heads).

*Próximo filme: Ela Quer Tudo (1986)

3 comentários em “Filmografia comentada: Spike Lee

  1. Sensacional, Natália, sigo na espera para ver a continuação do projeto. Gosto bastante dos teus textos e só agora descobri que tu tem essa plataforma, abraço.

  2. Adorei tua abordagem e ao mesmo tempo a cronologia biográfica.
    Me fez saborear e ao mesmo tempo desejar ver tudo a respeito.
    Incrível os obstáculos que sofreram e ainda sofre os homens por uma pele… afinal somos uma aquarela delas em cores e gêneros.
    Percebi que ao mesmo tempo ele não fugiu a sua história, ao produzir só o que acreditava.
    Obrigado aguardando a próxima…

  3. Natália!! Que texto maravilhoso!! Uma aula. Adorei!!! Não sabia sobre os lotes dado pelo estado americano (e tomado, depois). Parabéns!! Aguardo o próximo!

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