Teste do tempo: De Volta para o Futuro

A temática da viagem no tempo costuma causar dor de cabeça. Uma angústia compartilhada pelos criadores da história, que precisam criar regras e antever inconsistências, e pelo público, que se vê obrigado a buscar sentido no que está lendo/vendo. Essa é a atual experiência com Dark. Assim que a terceira temporada da série alemã chegou à Netflix, também começou a procura por explicações.

Essa busca por lógica, quase sempre encerrada por um paradoxo temporal, atinge a maior parte das produções do gênero. O que, ironicamente, não é o caso de De Volta para o Futuro. O filme escrito por Robert Zemeckis e Bob Gale, lançado há exatos 35 anos, fala de ciência e paradoxos temporais ao mesmo tempo em que não está preocupado em “fazer sentido” científico. Ainda assim, é um dos filmes melhores filmes já feitos sobre viagem do tempo. Por quê?

Zemeckis e Gale contam que a ideia surgiu quando começaram a pensar como seria ter conhecido seus pais antes, sendo amigos e frequentando a mesma escola. Esse é o segredo de De Volta Para o Futuro. A ciência maluca do Dr. Emmett Brown (Christopher Lloyd) é uma conversa sobre a percepção de passado, presente e futuro com uma mensagem clara: com pequenas mudanças é possível reescrever a própria história.

Marty McFly (Michael J. Fox) começa o filme sem enxergar seus pais como pessoas. Os dois eram apenas um lembrete de fracasso e repressão. Sua ida ao passado inicia seu processo de amadurecimento. Ele aprende que o seu medo de rejeição também era o medo do seu pai e passa a ver a tristeza no “presente” como consequência do seu desejo reprimido. Com sua mãe é a mesma coisa. Lorraine esqueceu quem era para assumir o que acreditava ser a imagem de uma mãe respeitável. A estranha relação edipiana dos dois serve para que a Marty perceba a sua existênca além da maternidade.

Desde a abertura, Zemeckis se preocupa em estabelecer a natureza fantástica do filme e seus personagens. É por isso que analisar as quase duas horas de De Volta Para o Futuro é ter uma aula prática de roteiro e direção. Sua preocupação pela combinação de atuações, design de produção, figurino e trilha sonora era a criação de um imaginário. Os primeiros 30 minutos são dedicados a apresentar Hill Valley, Marty, Doc Brown, George (Crispin Glover), Lorraine (Lea Thompson), Biff (Thomas F. Wilson) e todos os elementos que serão retomados depois para estabelecer a relação entre passado e as consequências do presente. A explicação “científica” é encaixada rapidamente como um mecanismo de direcionamento da trama, não como o centro narrativo. 

O cuidado de De Volta Para o Futuro está nos detalhes que vão atingir o emocional do público — como é, como era, como ficou —, não o racional. Marty, apesar da sua aventura fantástica pelo tempo e espaço a bordo de um DeLorean, vivencia as consequências de mudanças simples. Toda a preocupação científica se dissolve na justificativa de Doc por colar o bilhete sobre seu destino depois de advertir inúmeras vezes o pupilo sobre seus perigos: “Por que não?”.

A mensagem inspiradora e o esmero cinematográfico fazem de De Volta Para o Futuro um clássico atemporal. O que não o torna, porém, imune ao teste do tempo. Certamente algumas escolhas da época causam estranhamento, incluindo a forma como Doc consegue o plutônio para alimentar a máquina do tempo, George McFly observando Lorraine se trocar com um binóculo e o fato dela depender de salvação masculina e, claro, a infame piada sobre o adolescente branco ter criado o rock, não Chuck Berry. Elementos questionáveis que podem dar ao filme uma nova camada em 2020. Se lição foi aprendida, o retorno é ainda mais positivo. O que se ganha é um necessário olhar crítico para o passado para que a construção do futuro seja diferente: o que mudou e o que ainda precisamos mudar.

3 comentários em “Teste do tempo: De Volta para o Futuro”

  1. Adorei seu olhar crítico e perspicaz sobre esse filme que sim… faz de todos nós um momento se pegar pensando, se eu fizesse diferente algo no passado e sim, a grande sacada que pais não são vilões ou heróis, mas humanos que sofrem angústia.. erraram e temem às vezes mais que os filhos nos papéis que acreditam assumir. Digamos que fiz minha viagem interior e descobri muita gratidão a meus pais e acalmei a minha dor juvenil.
    Adoro filmes, me levam, como livros a Universos maravilhosos e que me fazem ver que não sou a única( às vezes meio louca) a ter idéias e sentimentos tão sutis como quando ouço um violino ou um sax.Se nada aconteceu agora… espere a próxima volta…
    O mundo GIRA!
    Gratidão e queria salientar que tua desenvoltura na escrita me facilitou muito sentir, ver, relembrar um ótimo momento.

  2. Lembro de ter ido ao cinema e não gostar do filme já revi e continuo com a mesma opinião esse não me pegou.

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