O que aprendi vendo (e revendo) Priscilla, a Rainha do Deserto

Um dos meus filmes preferidos é Priscilla, a Rainha do Deserto, a história da viagem  pelo interior da Austrália de duas drag queens (Tick/Mitzi interpretado por Hugo Weaving, e Adam/Felicia, interpretado por Guy Pearce) e uma transexual (Bernadette, interpretada por Terence Stamp). Devo tê-lo visto pela primeira vez pela TV quando tinha por volta de 11/12 anos e foi possivelmente o meu primeiro contato consciente com o universo LGBTQ+. Lembro de amar os personagens, as músicas e os figurinos (que renderam um merecido Oscar para Lizzy Gardiner e Tim Chappel). Minha sensação era de ter entrado em um mundo muito mais rico e colorido, rompendo com o que até então eu entendia como regra (também conhecida como heteronormatividade). 

Ao longo de todo junho, mês do Orgulho LGBTQ+, pensei na minha ligação com esse mundo que habito indiretamente como apoiadora e admiradora. Priscilla, a Rainha do Deserto foi a minha primeira referência, mas será que o filme de 1994 passa no teste do tempo? Se ao longo do anos já falei muita bobagem até entender que em certos assuntos me cabia apenas ouvir, não poderia o meu filme do coração ser um daqueles casos que precisam receber um sinal de advertência (como Disney+ e HBO Max fizeram para contornar o passado vergonhoso de algumas obras)? 

Por muito tempo, afinal, o audiovisual foi uma grande fonte de estereótipos, com produções para hétero ver que reduziam a personalidade de um indivíduo a sua sexualidade. Não que atualmente os problemas sobre representatividade tenham sido resolvidos, mas é possível dizer que o discurso evoluiu, e muito. Logo, apesar da vontade de falar sobre meu amor por Priscilla, a Rainha do Deserto, assumi o medo de ter apenas uma visão idealizada do filme. Mais um clássico da infância despedaçado pelas verdades da vida adulta. 

Uma breve pesquisa e encontrei outras reações ao longa de Stephan Elliott. Para alguns críticos, Priscilla, a Rainha do Deserto é misógino e conservador. Mesmo o tendo revisto algumas vezes (quando finalmente entendi de onde saiam as bolinhas de ping pong de uma certa cena e que Priscilla era o nome do ônibus não de alguém), nunca cheguei a questioná-lo nesse sentido. Poderia essa visão mudar a minha percepção? Só existia uma forma de descobrir. 

Filme revisto, a primeira conclusão é a de que, sim, há traços misóginos e conservadores nessa história, que acaba sendo, sim, um filme LGBTQ+ para hétero ver. Reduzir a obra a essas duas linhas, porém, é um deserviço. Em 1994, Elliott quis fazer um filme sobre aceitação, o que não significa que o seu olhar estivesse livre de preconceitos. Isso o torna mais complexo, não simplesmente “cancelável”.

Cynthia, a esposa filipina do mecânico Bob (interpretada por Julia Cortez, a Rita Repulsa do primeiro filme dos Power Rangers), é a personagem mais problemática. Além do estereótipo relacionado a sua origem asiática, ela é tratada como uma propriedade pelo marido, que deseja reprimir a sua sexualidade (vista como uma vulgaridade). Como Cynthia se liberta das suas amarras, é possível aceitar o  paralelo defendido pelo produtor Al Clark de que ela seria tão “desajustada” aos padrões da sociedade quanto as drags protagonistas. O problema passa a ser então o retrato positivo de Bob (Bill Hunter), apresentado nesse contexto como um verdadeiro cavalheiro, em nenhum momento questionado em seu machismo. 

Há também Shirl (June Marie Bennet), uma mulher masculinizada que cruza o caminho do trio. Apesar de ser representada dentro de um estereótipo lésbico, é ela quem confronta o grupo com ameaças homofóbicas, sendo logo humilhada por Bernadette. Esse policiamento da falta de feminilidade de Shirl é o que aproxima o grupo dos homens hétero do bar. Contudo, considerando que Marion (Sarah Chadwick), a esposa de Tick, é apresentada como lésbica, mas não é enquadrada dentro do mesmo estereótipo, a função de Shirl na trama é muito mais comentar sobre os preconceitos dentro da própria comunidade LGBTQ+. A relação de Adam e Bernadette é marcada pela mesma questão, com o jovem mimado insistindo em chamá-la por seu nome de registro. 

O que nos leva a outra questão. Apesar de ter um diretor e roteirista gay, Priscilla, a Rainha do Deserto é estrelado por três atores cis e heterossexuais. Além disso, ainda que celebre o amor e a aceitação, não há manifestação desse amor, já que, como admitiu o próprio Stephan Elliott, um beijo poderia prejudicar o desempenho na bilheteria. Vale lembrar que o ano é 1994 e o longa custou a sair do papel por conta da dificuldade de encontrar financiamento para a história de três drags pelo deserto. Feito hoje, talvez seguisse por um caminho mais genuinamente diverso. Na época, a produção foi possível graças ao apoio do governo australiano e as concessões feitas por Elliott e os produtores Michael Hamlyn e Al Clark (que aceitaram trabalhar por um salário abaixo do mercado). 

Isso não exime o filme das suas falhas, é claro, mas também não exclui seus méritos. Tick, Adam e Bernadette são personagens multidimensionais, que existem além da sua sexualidade ou identidade de gênero. Bernadette precisa reconhecer o próprio envelhecimento na sua busca por amor, Adam dribla a falta de aceitação da família com dinheiro, drogas e festas, enquanto Tick, um homem gay casado com uma mulher lésbica, precisa entender que a sua sexualidade não é uma barreira para a paternidade. 

A partir do arco de Tick, o da aceitação de si mesmo, Priscilla se afirma como uma história sobre diálogo, mesmo sem grandes discursos. Sua eloquência está na simplicidade com que cria pequenos momentos didáticos para declarar o óbvio para quem o desconhece: o comportamento de Adam não é fruto de perversão, a transexualidade de Bernadette não é uma escolha e a capacidade de Tick como pai ou de Marion como mãe não é determinada por suas sexualidades. É significativo, aliás, como o filme faz de Ben (Mark Holmes), o filho de Tick e Marion, a voz da razão. Como pode um adulto questionar uma criança que só quer que seus pais sejam felizes sendo eles mesmos?

São esses fatores que mantém o filme como uma porta de entrada para um mundo mais interessante. Não existe aqui a intenção de criar uma verdade absoluta, mas de questionar, mesmo que não exista uma resposta certa. Revê-lo com outro olhar o tornou mais significativo justamente pelo confronto com a minha própria evolução de pensamento — e também me fez perceber que, embora Terence Stamp seja um ator inquestionável, a sua Bernadette seria a primeira eliminada de qualquer temporada de Ru Paul’s Drag Race.

Felizmente existem hoje inúmeros exemplos de produções mais precisas para falar sobre as questões LGBTQ+, o que não tira a importância cinematográfica de Priscilla, a Rainha do Deserto. Longe de ser uma “fada sensata incancelável”, é a sua imperfeição para criar uma mensagem positiva e o seu deboche camp de cores, plumas e canções clássicas que o tornam uma obra de arte capaz de falar com quem sequer sabia que precisava ouvir.

Um comentário em “O que aprendi vendo (e revendo) Priscilla, a Rainha do Deserto

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s