O paradoxo da normalidade

WandaVision é um dos títulos mais promissores da primeira leva de séries do Marvel Studios destinada ao Disney+. Situada após os eventos de Vingadores: Ultimato, vai mostrar a Feiticeira Escarlate criando a ilusão de uma vida normal para esquecer a morte do Visão (veja o teaser aqui).

Essa busca por normalidade, não por acaso, é formatada pelas estéticas de séries de TV clássicas como The Dick Van Dyke Show, The Brady Bunch, Family Ties e Full House. Programas que, ao enlatar comportamentos, dizem para o espectador: “é assim que as coisas deveriam ser”. O apelo para o público está justamente no conforto de habitar por alguns minutos um mundo simplificado em que qualquer problema se resolve com uma boa conversa ao pé da cama.

Além das homenagens televisivas, o conceito de WandaVision tem duas inspirações claras dos quadrinhos: a minissérie Dinastia M, em que a Feiticeira, depois da morte dos filhos, cria realidades perfeitas para os heróis da Marvel; e Visão, o premiado arco escrito por Tom King, que mostra a tentativa do sintozoide (uma variação do tradicional androide) de lidar com as dores da sua existência pela criação da família perfeita. Pelos seus cálculos, a esposa Virgínia e os gêmeos Vin e Viv são o meio pelo qual ele encontrará a tão almejada felicidade, mesmo que se encaixar dentro do “normal” exija sacrifícios.

Detalhe da capa de Visão, de Tom King, publicado no Brasil pela Panini Comics

Ler em 2020 o recorte de King para a história de Visão (publicado originalmente em 2016) leva a um paralelo imediato com as reações à pandemia. Quando a quarentena chegou ao ocidente, uma parcela da população viu a sua noção de felicidade em risco por ser obrigada a transformar sua rotina. Logo, surgiram reflexões e mais reflexões sobre o “novo normal”, uma tentativa de encaixar a situação dentro de parâmetros aceitáveis. Uma forma de dizer, em meio ao caos, “não há nada acontecendo”, como na já clássica tirinha do André Dahmer. Afinal, se esse é o “novo normal”, não há espaço para questionar o que não funcionava antes e nem o que não está funcionando agora. 

Afirmar como verdade aquilo que não tem significado é a missão mor da humanidade”, explica Visão para Virgínia enquanto os dois debatem sobre a falta de lógica dos comportamentos humanos. Logo, dentro do raciocínio da inteligência artificial, para se tornar humano é preciso assumir como verdade algo sem significado. Sendo “normal”, Visão evita confrontar a própria complexidade e a dos seus familiares, enquadrando-os nos seus devidos papéis de pai/marido, mãe/esposa, filho/filha/adolescentes. Eles precisam ser adequados, não chamar atenção. Quando falhas aparecem, Visão faz um ajuste no cálculo e adiciona um cachorro à família. A decisão humana é continuar, mesmo que não seja possível. Não há escolha. 

Estamos apegados a esse conceito de normalidade pelo conforto em não questionar a nossa falta de lógica existencial. Para começar, como se determina o que é normal? Como bem pontua M.M. Izidoro, não há como saber. O que é normal para um, não é para o outro, o normal coletivo não é o mesmo que o individual, o normal é o agora, nem o antes, nem o depois. Para evitar essa noção caótica, porém, regras são estabelecidas arbitrariamente e preconceitos são criados.

Assumir que o seu “normal” também é, ou deveria ser, o do outro está na base dos conflitos sociais. A ideia de que esse “normal” é o certo inibe todo o comportamento diferente, uma grande fonte de frustração para quem não se encaixa nessa norma. E quem se julga “normal” não costuma ver além da própria normalidade. O já clássico “racismo não existe” e suas variáveis. Quem pensava no “novo normal” dentro da rotina da classe média, por exemplo, dificilmente estava pensando em qual era a rotina de quem vive na periferia.

Na HQ de Tom King, Virgínia tenta a todo custo se encaixar no conceito determinado por Visão, o que entra em conflito com a sua própria natureza e as ações ocorridas ao seu redor. “Está tudo normal”, ela grita esmurrando a mesa de jantar. Ao usar uma família de sintozoides para tocar na falta de lógica da obsessão por normalidade, King destaca o quanto esse esforço é em vão. O certo e o errado, Virgínia vai entender depois, não depende apenas de regras de comportamento, mas da aceitação e interpretação de todas as variáveis que nos cercam. E a resposta nem sempre será exata. 

Entender que não há uma normalidade absoluta para nos guiar é exaustivo. Se não existe um padrão a ser seguido, questões éticas começam a aparecer em tudo: como o meu comportamento afeta a vida das pessoas a minha volta? Quais as consequências das minhas ações para sociedade? Daí a pressa de tantos para retornar a uma realidade que fossem capazes de reconhecer. É menos dolorido, e muito mais cômodo, ir ao shopping no meio da pandemia do que ficar sentado em casa ruminando as inconsistências da humanidade. 

Em todos os casos, a natureza dá a resposta. Pode ser imediata, como o aumento no número de casos de coronavírus depois da reabertura do comércio, ou emocionalmente desgastante. A normalidade como regra é uma panela de pressão prestes a explodir. Visão é sobre essa explosão e WandaVision, ainda que esteja longe de estrear (a previsão original era para o final do ano), já tem destino certo para a sua ilusão da família perfeita: caos.

Assumir a nossa natureza caótica é um passo para a libertação. Não é fácil. Exige esforço, empatia e a consciência de que reconhecer a verdade sobre si mesmo leva ao paradoxo: o verdadeiro normal é não ser normal.

Clique nas imagens abaixo para comprar as edições brasileiras do arco Visão:

8 comentários em “O paradoxo da normalidade

  1. Baita paralelo Natália, espero que continue publicando mais por aqui. Quanto ao texto, o King, pensando aqui, acho que consigo ver essa gana de “desmistificar” o normal como um norte nas obras dele. No ótimo O Xerife da Babilônia, ele apresentava uma situação na qual a violência não passava de uma trivialidade na vida dos personagens, no mesmo passo que quando eles param para refletir, se incomodam com como eles estão vivendo, escolhendo a comodidade do cotidiano como resposta para seus problemas, bem com seu, também ótimo, Senhor Milagre, há ali um personagem, atormentado pelo desespero que é viver, usando seus poderes, e sua profissão, para elaborar formas de escapar da realidade, que vai batendo a todo instante, na porta de sua casa. Recomendo fortemente a leitura desses outros dois títulos. Como disse, espero ver mais textos teus por aqui.

  2. Realmente é mais cômodo não questionar a realidade e deixar a vida levar. Se um texto me levou a ter uma crise existencial é porque ele é muito bom hahaha
    Parabéns!

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