Guerra, futebol, democracia e arte

Um final reticente. No último encontro do curso de altos estudos Fronteiras do Pensamento, Michel Houellebecq mostrou a um Salão de Atos da UFRGS lotado todas as faces de um dos mais célebres e controversos escritores da atualidade. Em uma palestra pontuada por sarcasmos e questionamentos, o polêmico romancista apresentou em A literatura e a invenção do mundo uma adaptação da obra de grandes pensadores franceses à atual realidade cultural.

Tímido, iniciou a conferência anunciando que se tratava da sua primeira, e última, palestra. Seguiu citando Auguste Comte, lembrando a guerra como uma necessidade humana para satisfazer desejos como violência e adrenalina.  Sendo hoje o número e a abrangência das guerras inferior, o futebol seria o substituto, a fonte de satisfação dos desejos humanos mais inadequados. Alex de Tocqueville e suas observações sobre a democracia construíram a segunda ideia apresentada pelo autor de Plataforma e Partículas Elementares. Segundo Tocqueville, em um mundo democrático o individualismo estaria ameaçado. A solução “para que não se acabe em um hospício ou em uma prisão”: a arte.

 Sobre a dominação cultural norte-americana, Houellebecq brincou: “Ao mesmo tempo em que eles querem levar a democracia a todos, desistiram de tentar convencer o mundo sobre beisebol”. Mas se o domínio norte-americano não chega ao futebol, o país não abre mão de sua presença soberana nas artes. O cinema e o romance estariam sendo moldados de acordo com os ideais de Tio Sam, que só poderiam ser combatidos com um nacionalismo baseado no orgulho.  “Quando se está convencido da própria superioridade, ela se torna real”, concluiu o escritor, apresentando a Rússia como um país que pode superar o domínio norte-americano pela consciência de sua passada grandiosidade.

Em seu último movimento, o escritor deixou de lado o roteiro da palestra e levantou a questão sobre o Brasil. Como o país se enquadraria neste contexto de guerra, futebol, democracia e arte? “Não sei”, respondeu. “Talvez vocês possam me falar a respeito”, acrescentou. O assunto permaneceu no ar.

* Texto publicado no antigo site http://www.copesulcultural.com.br em 05/12/2007

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