Da morte do dono

(um exercício de obviedades baseado em fatos )

Ato I – Piadas prontas da vida

“Mais um dia”, pensou Giulia antes de abrir os olhos. Mas, enquanto ainda ensaiava uma boa espreguiçada na cama, veio da sala a sentença:

– Pombas! O Beto Carrero morreu…

A guria sentou. “Como assim morreu?”. Levantou e encontrou o pai em frente à TV da sala, acompanhando a notícia sobre a morte do empresário/cowboy/amigo do Renato Aragão:

–… faleceu na madrugada desta sexta-feira, vítima de choque cardiogênico…

Raiva e tristeza fitavam a razão da menina. “Como é que esse velho foi morrer agora?”, reclamava o pai em silêncio. Giulia não sabia o que fazer. A falta de timing do senhor João Batista Sérgio Murad estragara o aniversário de nove anos da criança. Sem montanha-russa, trem fantasma ou aventuras com o cavalo Faísca, Giulia amaldiçoava aquele momento.

–… a assessoria do empresário informa que o parque temático Beto Carrero World funcionará normalmente amanhã…

O rosto da guria se ilumina. Morrer não é desculpa para perder dinheiro. O pai saudou a ganância póstuma do senhor Murad. O tão aguardado 2 de fevereiro seguia como planejado. E nem aquela tragédia para o western brasileiro ficaria no caminho.

Ato II – Elefantes voadores e vozes do além

Às onze horas – enquanto o corpo de Murad recebia a despedida de velhinhas em lágrimas e curiosos, interessados em saber se o empresário seguiria com os aparatos de cowboy – a família entrava no carro para o dia na terra do falecido. Céu nublado e um chão preenchido por poças marcavam a entrada. O castelo, que antes pretendia atender aos anseios daqueles sem dinheiro suficiente para visitar a Cinderela do senhor Disney, assumia o recente abandono do proprietário. O silêncio dos constrangidos pais cortava a risada da gurizada que insistira em aparecer. Giulia não ligava, era o dia dela, estava quase tudo perfeito. Faltava ainda o dono do parque e seu eqüino companheiro.

“Aonde é que estamos?”, matutava o pai, decifrando uma colorida e suposta carta geográfica.

– Quero voar no elefante – gritava a menor, apontando para uma manada de alegres paquidermes.

– A gente vai na montanha-russa! – cortou Giulia, desprezando a vontade da irmã – É meu aniversário e quero ir na montanha-russa.

A pequena ensaiava sua manha quando foi interrompida:

– Bem-vindo ao Beto Carrero World, amiguinho!

“É a voz dele!”, exclamava Giulia, procurando a fonte do discurso. “Coisa macabra…” – pensava o pai, inconformado com as tétricas circunstâncias do aniversário da filha – “o velho nem esfriou e já assombra o lugar”. Mas para Giulia aquele não era um recado do além. Era prova que o dono de Faísca estava ainda por lá, vivo. Tudo estava perfeito agora.

Ato III – Cowboys chorando e aparições do velho oeste

Elefantes voaram, mas o alterego do senhor Murad continua presente apenas em voz, pelos repetitivos anúncios dos alto-falantes. “Aonde será que ele está?”, perguntava Giulia. E nada. O senil cowboy permanecia incógnito. O pai olhava o relógio, calculando quando poderiam ir embora. “Cinco horas. Mais um pouco e já dá pra ir”. Respirou.

– Falta o show de encerramento, paiê! – comunicou a guria sobre a últimaatração.

Seguiram para tenda que abrigaria o derradeiro espetáculo daquele dia bizarro. A pequena dormia no colo da mãe. O pai bocejava. Giulia aguardava. O show começou. No palco, atores entre lágrimas executavam mais uma vez a rotina de tantos anos. Bandidos e donzelas em perigo. A música anuncia a entrada do herói: “Beee-to Ca-rrero”. Surge, montado no branco Faísca, o personagem do velho oeste tupiniquim. “Esse não é o Beto Carrero”, reclama a guria indignada. “Coisa macabra…”, suspira o pai. A moçinha do show é salva pelo sósia. Aplausos! A maioria das crianças compra a idéia de que o cowboy de Santa Catarina continua vivo. Beto Carrero World não fechará suas portas pela falta do anfitrião. Os herdeiros comemoram discretamente. Giulia sai emburrada. Estragaram o dia dela.

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